Uma leitura

Renata Abalém

Isto não é um plano de comunicação. É uma leitura sua, feita a partir de sete horas de conversa, do jeito que você lê um processo: voltando à origem para achar o que ninguém tinha visto ainda. Em cada parte há um espaço em branco, para você escrever o que vier.

Renata Abalém
Goiânia · agosto de 2026
01

A leitura

O que este documento é, e por que ele existe.

A tese deste documento

Você passou quarenta anos lendo processos desde a origem para encontrar o que ninguém tinha visto. Este documento faz exatamente isso com você.

Entre julho e agosto de 2026 nós conversamos três vezes, sete horas no total. Quase nada foi sobre marketing. Falamos de Piracanjuba, de uma poesia publicada num jornal quando você tinha seis anos, de um processo que durou 128 anos e sumiu de um cartório, de cento e oitenta tapetes persas, de uma carta psicografada que você inventou e demorou anos para assumir, de Deus, de divórcio, de um homem curvado pela enxada, de zoroastrismo, e de um funk.

No meio disso tudo apareceu, logo nos primeiros minutos da última conversa, a coisa mais importante que você disse:

"Eu tenho medo de morrer e não ler tudo que eu quero ler. Medo de morrer e não escrever tudo que eu quero escrever. Medo de morrer e ninguém contar as histórias que me foram cedidas para serem contadas. É isso que eu tenho medo."

12 de agosto de 2026

Guardei essa frase e li tudo o que veio depois à luz dela. É por isso que este painel não fala de pauta, de algoritmo ou de estratégia. Aquilo é problema meu, e eu vou cuidar disso. Este aqui é sobre você.

Você disse que gosta da origem. Então este documento começa de onde deveria: pelo que já estava lá antes de qualquer plano.

São nove leituras, e uma décima parte que é só sua. Passamos por de onde você vem, pela virada que fez a carreira acontecer, pelas muitas Renatas, pelo que você acredita, pela biblioteca viva que é o seu repertório, pelo método que você usa sem nomear, pelas entrelinhas que é a parte desconfortável, e pela obra guardada.

Em cada uma delas há um espaço para você escrever. Não é exercício nem tarefa. É um lugar para botar para fora o que a leitura provocar, na hora em que provocar.

Como ler isto

Tudo que está aqui saiu das suas próprias palavras. Onde eu interpretei, eu digo que estou interpretando. Onde você falou, está entre aspas e com a data.

Você vai discordar de algumas coisas. Isso também é informação: o ponto exato onde você discorda costuma ser o ponto mais interessante do documento inteiro.

02

De onde você vem

Piracanjuba, uma casa árabe, uma poesia publicada aos seis anos e um homem curvado que você via na procissão. Quase tudo que você é hoje já estava ali.

6anos quando publicou a primeira poesia num jornal
1988formatura, no ano exato da troca de Constituição
1990o escritório próprio, aberto antes dos trinta
40anos de profissão, completados agora

A casa

Filha de árabe, de família humilde, com a história do ônibus. Você vendia bolsa e caneta na faculdade porque gostava de fazer o próprio dinheiro. Estudou no interior, veio para Goiânia fazer o segundo grau, e não se encaixou:

"Minha cabeça era completamente diferente. Eu não me encaixei, então eu vivia numa realidade paralela, que era eu, centro de mim mesma. Muitos anos de terapia depois, eu estou aqui conversando."

12 de agosto de 2026

Antes de andar você já escrevia. Aos seis anos publicou poesia em jornal e depois ganhou prêmio internacional. Isso não é um detalhe biográfico simpático: é a primeira prova de que a escrita veio antes de tudo, inclusive antes do Direito.

O corcunda da enxada

A imagem mais forte que você guardou da infância não é da sua casa. É de um homem que a cidade inteira via na padaria, na igreja e na procissão, e que setenta anos de enxada tinham curvado a ponto de ele não conseguir mais se levantar.

Você disse que para as crianças aquilo era aterrorizante. E depois fez a pergunta que carrega o seu trabalho de hoje inteiro: para onde foi o pedaço de terra dele?

Vendido, tomado pelo banco, ou, na melhor das hipóteses, arrendado. E arrendamento de área pequena não sustenta dez filhos. Foi assim que a terra foi mudando de mão, até chegar em leilões de quinze milhões arrematados por quem não é daqui.

O que eu leio nisso

Você não escolheu o Agro por oportunidade de mercado. Você voltou para uma cena da sua infância e foi trabalhar exatamente no ponto em que ela dói.

Cadê o goiano que estava aqui? é o título de um artigo seu. Mas antes disso é uma pergunta que uma menina de Piracanjuba fez e nunca esqueceu.

A menina que trocava de sapato

No começo da carreira você chegava muito cedo e saía muito tarde no prédio perto do fórum. Contou isso rindo, como quem confessa uma vaidade antiga: não tinha carro e não queria que ninguém a visse chegando a pé, vindo da casa da sua mãe, atravessando o Bosque dos Buritis.

Você trocava de sapato ao chegar.

Guarde essa cena. Ela volta na parte das entrelinhas, e ela explica mais coisa sobre a sua carreira do que qualquer diploma.

O que isso te faz pensar

Sobre a casa em que você cresceu, sobre a menina do interior, sobre o corcunda da enxada, ou sobre qualquer coisa que essa parte tenha mexido. Escreva do jeito que vier, sem ordem e sem capricho. Ninguém lê além de você, a não ser que você queira.

Ainda em branco
03

A virada que você chama de acaso

Você contou essa história inteira em seis minutos e resumiu tudo numa frase: "foi uma feliz junção de coincidências, tudo na minha vida foi um acaso". Eu li a mesma história e vi outra coisa.

1988

A formatura no ano errado, que virou o ano certo

Você se formou exatamente no ano da mudança de Constituição. Estudou a anterior, viu a parte transitória da nova, e teve uma única cadeira de tributário, superficial, porque em Goiás não havia indústria e ninguém estudava aquilo.

Você entrou no mercado sem a matéria que se tornaria a sua especialidade. Isso costuma ser desvantagem. Aqui foi o contrário: quando o tributário chegou, ninguém em volta sabia mais do que você.

1990 a 1992

O senhor do andar

Um ex-diretor de banco estadual, quase vinte e cinco anos mais velho, trabalhava no mesmo andar. Ele via você chegar muito cedo e sair muito tarde, quase sempre sozinha, às vezes sem secretária.

Foi ele quem te levou para a empresa gaúcha de recuperação de crédito tributário. Ninguém te apresentou por currículo. Apresentaram por constância observada.

1992

Aprender tudo do zero, ganhando em dólar

Dois anos numa empresa com mentalidade que não existia aqui: décimo terceiro, décimo quarto, décimo quinto salário, pagamento duas vezes por mês. Cursos em Porto Alegre e Brasília. Responsabilidade sobre cinco estados.

Nas suas palavras: "eu não sabia o que significava ICMS. Eu aprendi tudo do zero." E depois: "eu vivia, teria pago para trabalhar."

1994

A construtora, a certidão e a lixa de unha

Uma empresa ficou sem cobertura jurídica e te procurou, porque era mais fácil achar o seu nome na lista telefônica. Sem certidão, ela não participava de licitação, e sem licitação não era nada.

Você entrou com mandado de segurança pedindo a certidão em 24 horas sob pena de prisão do delegado da Receita Federal. O juiz deu doze horas. O superintendente ligou. E você respondeu: "eu levo uma lixa de unha para o senhor."

Ele riu, mandou entregar a certidão, e virou seu amigo.

1995

O honorário que comprou uma fazenda

Dias depois, o diretor de contabilidade de um banco estadual precisava de certidão para o Banco Central. Procurou o presidente do banco, procurou o delegado da Receita. E o delegado, o cargo mais importante da Receita em Goiás, disse a eles: "só tem uma pessoa que consegue isso."

Você pegou toda a parte tributária do banco, teve que passar pelo Tribunal de Contas por notória especialização, e ainda não tinha trinta anos. O honorário inicial comprou uma fazenda.

novembro de 2025

A segunda virada, que ainda está acontecendo

O telefonema de uma cooperativa num feriado, sobre um leilão que ninguém tinha visto chegar. Um graneleiro de oitenta e tantos milhões indo a leilão por quatro. Você olhou um processo que não era seu, avisou, e no dia seguinte já sabia que aquilo era o seu lugar.

Peça escrita na segunda, leilão suspenso na terça. É de novembro para cá que existe a advogada que este documento está lendo.

A leitura que eu faço disso

O senhor do banco não reparou num acaso. Ele reparou em alguém que estava sempre lá, antes de todo mundo e depois de todo mundo.

Você transformou uma dificuldade material, não ter carro, em rotina. E a rotina em oportunidade. Chamar isso de acaso é generoso com a sorte e injusto com você.

E há um detalhe nessa história que diz muito sobre a sua relação com o próprio trabalho. Você contou, de passagem, que já fez contrato com grandes empresas em que devolveria o dinheiro com juros e correção se perdesse a causa.

Poucos advogados no país fariam isso. Você fez, e não deu importância ao contar.

"Eu saio de casa, ou eu sento aqui na frente do meu computador, com certeza que tudo vai dar certo. Eu não sei o quê, e se der errado, lá na frente vai nascer alguma coisa. É assim que eu penso."

12 de agosto de 2026

O que isso te faz pensar

Você reconhece a sua história contada assim, de fora? Tem alguma coisa aqui que eu entendi errado, ou alguma parte que ficou de fora e faz falta? Escreva o que vier.

Ainda em branco
04

As muitas Renatas

A expressão é sua: "eu tenho muitas Renatas, mas eu preciso fazer o dinheiro, porque essa Renata é que vai aposentar as outras". Eu contei seis. E elas não competem como você pensa que competem.

I

A que lê a origem

A advogada. Volta a 1969, a 1996, ao decreto que ninguém mais abre. Vê o erro no papel porque abre o papel. Foi ela que suspendeu um leilão marcado para terça com uma peça escrita na segunda, contratada na sexta.

O que ela te dáSustento, reputação e a única coisa que você chamou de fácil e prazerosa ao mesmo tempo. "Me dá muito prazer. Eu falei: gente, mas isso aqui é muito fácil."
O que ela te cobraTempo integral. E a fama de ser só isso, quando você é muito mais.
II

A que guarda

A colecionadora. Cento e oitenta tapetes persas, alguns com mais de cento e vinte anos, alguns assinados. Livro francês de 1800 com carta de Alexandre Dumas encadernada dentro. Jogo de prato inglês. Quadro de quatrocentos reais que vale cinquenta mil. Assídua em leilões do Rio.

O que ela te dáRepertório e olho. Quem aprende a avaliar peça aprende a avaliar processo, e é o mesmo músculo.
O que ela te cobraEspaço, dinheiro, e uma pergunta que o rapaz que entregou os pratos fez e você não soube responder: para quem isso vai ficar.
III

A que inventa

A escritora. Aurora, filha da imortal de Alexandria. O Dee, que foi sacerdote de Aton, neto de Tamerlão, astrólogo de Elizabeth, e hoje é consultor de pouquíssimas famílias no mundo. A caolha do sertão entre Pernambuco e Bahia, que veio com tanta força que você parou de escrever.

O que ela te dáA parte que você chamou de prazer, contra a parte que é técnica. Suas palavras: "o mundo das ideias".
O que ela te cobraA culpa de não ter parido nada disso ainda. E o medo, que você nomeou no primeiro minuto da nossa última conversa.
IV

A que canta

A compositora. Letra para ópera, para cinema, para sertanejo. E funk, que você fez questão de dizer que não pode aparecer, e cantou dois minutos depois. Escreveu para a mãe do PC uma música sobre chuva de meteoros e chuva de ipê caindo no mesmo dia de eclipse.

O que ela te dáProva de que a criatividade não secou em quarenta anos de petição. E leveza, que é raro em quem carrega o que você carrega.
O que ela te cobraNada. É a única que não cobra, e talvez seja exatamente por isso que você a esconde.
V

A que deu o basta

A mulher que saiu de um casamento que a igreja não admitia que ela deixasse, com três filhos e uma casa vendida pela metade do valor. Que pegou o primeiro dinheiro que entrou e foi pagar a escola. Que ficou dez anos sozinha e cuidou do próprio jardim.

O que ela te dáA régua da confiança, que você disse ser inegociável. E a certeza de que você aguenta, porque você já aguentou.
O que ela te cobraUma dureza que às vezes chega antes da conversa. O saco de lixo preto com as roupas dele é uma imagem que você contou rindo, e ela diz muito.
VI

A que preside

A institucional. Seis anos na Comissão de Direito do Consumidor da OAB, com duzentos e tantos advogados sob a presidência. Cadeira 18 da Academia Líbano Brasileira de Letras, que foi de Janete Clair. Câmara de Comércio Brasil-Líbano. Diretora jurídica do IDC.

O que ela te dáAcesso. Foi ela que trouxe o cientista da Moderna para uma live em plena pandemia, com um convite mandado pelo LinkedIn e um inglês que você mesma chamou de ridículo.
O que ela te cobraVocê mesma disse: "esse tipo de coisa não deu dinheiro". Custa tempo e devolve prestígio, não caixa.

A leitura que eu faço disso

Você coleciona objetos antigos que ninguém mais quer. E profissionalmente vai buscar leis antigas que ninguém mais abre.

É o mesmo movimento, com o mesmo prazer. E um deles você chama de hobby.

Você as trata como concorrentes pelo mesmo tempo. Uma trabalha, as outras esperam. E para justificar a espera, disse que a Renata advogada é que vai aposentar as outras.

Eu li o contrário. A que guarda e a que lê a origem são a mesma pessoa fazendo o mesmo gesto em matérias diferentes. A que inventa histórias de gente que atravessa séculos carregando o que viu, e a que tem medo de morrer sem contar as histórias que lhe foram cedidas, são a mesma.

Nenhuma delas está roubando tempo da outra. Elas são a explicação uma da outra.

Isso tem uma consequência prática, e não é filosofia: quando você comunica só a advogada, você comunica um sexto de si mesma, e justamente o sexto que todos os concorrentes também têm. As outras cinco são o que ninguém consegue copiar.

O que isso te faz pensar

Faltou alguma Renata nessa lista? Alguma delas está descrita de um jeito que você não reconhece? E se você tivesse que apresentar só uma a um desconhecido, qual seria, e o que se perderia nesse encontro?

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05

O que você acredita

Sobre Deus, sobre dinheiro, sobre confiança e sobre dívida. Quatro convicções que apareceram em conversas diferentes e que, juntas, formam uma coisa só.

Sobre Deus

Uma fé que sobreviveu à igreja

Vinte e poucos anos congregando, filhos batizados, um deles quatro meses em missões na Tanzânia. E depois o afastamento, porque a igreja pregava usos e costumes e não admitia o divórcio, num casamento que você disse que teria te matado.

Sua conclusão não foi contra a fé, foi contra a mediação: "não é a igreja, são as pessoas." E o que ficou foi maior: "Deus pode me dirigir porque ele é. Ele não precisa de mim."

Sobre dinheiro

Você dava aula do que via ser desrespeitado em casa

Você ensinava Finanças à Luz da Bíblia dentro da igreja enquanto o seu casamento ia na direção oposta. Ficou mais de dez anos sem cartão de crédito, não tem cheque especial, não tem dívida, e gosta de pegar no dinheiro para saber quanto tem.

A sua tese sobre a dívida do produtor não é técnica. É vivida. Você sabe exatamente o que uma dívida faz com uma casa.

Sobre confiança

O fio do bigode, e o saco de lixo preto

Perguntada o que faria você encerrar um contrato, não hesitou: falta de confiança. E ilustrou com o namorado, mandado embora com as roupas num saco preto entregue no aeroporto pelo motorista que está com você há vinte e três anos.

Você foi criada no fio do bigode. Por isso o cliente que pediu honorário de volta depois de vinte e oito anos te constrange mais do que qualquer processo perdido.

Sobre servidão

"Aquele que toma emprestado vira servo de quem empresta"

É de Provérbios, e você usa como chave de leitura do país inteiro. Setenta milhões de brasileiros superendividados, uma sociedade de base escravagista que nunca saiu dessa relação, e uma prorrogação de dívida que você não chama de alívio.

Suas palavras: "você está prorrogando o tempo de escravidão do brasileiro." Você chegou a procurar uma consteladora para desenvolver um trabalho com devedores, porque adianta pouco reduzir a dívida sem tratar a ferida onde ela nasceu.

O que amarra as quatro

Você acredita que a origem explica o presente. Em Deus, em dinheiro, em confiança e em dívida, a sua pergunta é sempre a mesma: de onde isso veio?

É a mesma pergunta que você faz ao abrir um processo. Não é coincidência: é a sua única forma de pensar, aplicada a tudo.

A promessa

Tem uma coisa que você contou quando eu perguntei quanto precisaria entrar por mês para viver como quer aos sessenta e cinco. Você respondeu "um milhão", disse que era um número redondo, e emendou:

"Eu tenho uma promessa do Senhor, feita muitos anos atrás, num momento de muita dificuldade. Ele me deu um número. Passados uns dez anos eu falei: Senhor, o senhor não é homem para que minta, cadê o dinheiro? E ele falou: aplica juros e correção monetária, porque eu vou te dar esse dinheiro. O número inicial eram trinta milhões."

12 de agosto de 2026

E você contou isso logo depois de descrever o que passou: a casa vendida pela metade do valor, o primeiro dinheiro indo pagar a escola, o dono da escola que não acreditou, e um culto de fim de ano em que duas mil pessoas ouviram algo que ninguém deveria ter dito ao microfone.

A avó dizia: cuida do jardim que a borboleta vem. Você não ficou esperando a borboleta, mas cuidou do jardim.

Depois eu percebi que existe um versículo para isso, e ele é o mesmo que eu carrego há anos gravado num crachá: Provérbios 4, versículo 23. Sobre tudo o que se deve guardar, guarda o teu coração, porque dele procedem as fontes da vida.

O que isso te faz pensar

Essas quatro convicções são mesmo as suas, do jeito que estão escritas? Tem alguma que mudou nos últimos anos sem você reparar? E tem alguma que você defende em público e vive diferente em casa?

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06

A biblioteca viva

O seu repertório não é cultura geral, é ferramenta de trabalho. Este é o inventário do que você carrega, e do que cada coisa faz por você sem que você tenha percebido.

História

Dom Pedro II e a Princesa Isabel

O processo de 128 anos, o dote imperial, as cinco universidades que deram razão a ela, o juiz que decidiu contra, a origem da palavra jurisconsulto, e o sumiço do processo por sessenta e sete anos. Você chorou ao falar de Dom Pedro.

Persa

O xá Abbas e as trinta e quatro arcas

A caravana de presentes para os reinos ocidentais, assaltada perto de Constantinopla, com os tapetes voadores perdidos até hoje. Um povo que inventou o comércio, o alfabeto, a púrpura e os instrumentos de ler o céu.

Religião comparada

Zoroastrismo e as origens

Depois do afastamento da igreja você foi estudar quem Deus foi em todas as culturas. Mitologia judaica, o dilúvio, o Mahabharata, a Pérsia, a divindade da terra como mãe gestante de água, planta e corpo humano.

Direito internacional

Periódicos da Inglaterra e dos Estados Unidos

Você assina e lê. Acompanha a ação de consumidores americanos contra montadora por atualização de sistema, a ação bilionária contra a Meta por vício em rede social, e lembra que as tabagistas foram condenadas lá nos anos noventa e aqui ninguém ganhou.

Literatura

A cadeira 18

Você ocupa na Academia Líbano Brasileira de Letras a cadeira que foi de Janete Clair, a mulher que inaugurou a exportação de entretenimento brasileiro. Sobre ela quase nada foi escrito, e já te ofereceram patrocínio para uma exposição.

O Rio

Um ano no Leblon

O melhor ano da sua vida. O mecenas de oitenta e tantos anos com quarenta milhões em obras, compadre de Siron Franco, que abre o apartamento para você ver. Décio Lins e Silva subindo para comer macarrão e contando história íntima da política goiana. A livraria Argumento, com lançamento no domingo chuvoso.

Por que isto está aqui

Nenhum advogado do Agro em Goiás explica execução fiscal a partir de 1889. Você consegue.

Quando eu liguei o processo da Princesa Isabel ao produtor que perde a fazenda hoje, você respondeu na hora: "muito parecidos, eu não tinha feito esse link. É a perda da propriedade para um ente sem possibilidade de defesa."

Esse link nasceu de uma pergunta que você nunca tinha se feito. E é a coisa mais sua que existe.

Há uma diferença entre ter repertório e usar repertório. A maioria das pessoas cultas guarda o que sabe em compartimentos: história é lazer, direito é trabalho, arte é fim de semana.

Você não separa, e por isso enxerga o que os outros não enxergam. O tapete que conta uma história de civilização e o processo que conta a história de uma família são o mesmo objeto para você: coisas antigas que guardam informação que ninguém mais lê.

O seu diferencial competitivo não está no que você sabe de Direito. Está no que você sabe além dele.

E há um detalhe que confirma isso: você usa três assistentes de inteligência artificial, e usa bem, para comparar sufismo com zoroastrismo, para varrer o céu de uma data específica, para checar uma tese. Uma mulher que se formou antes do Google, e que os filhos brincam que "já era alguém quando o Google aconteceu", adotou a ferramenta mais nova do mundo para servir ao repertório mais antigo que ela tem.

O que isso te faz pensar

O que ficou de fora dessa biblioteca e deveria estar aqui? E, mais importante: quais dessas coisas você nunca imaginou que pudessem entrar no seu trabalho, e agora começa a achar que podem?

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07

A advogada que você é

Você faz isto por instinto e chama de "gostar de cavocar". Tem estrutura, tem sequência e tem nome. Está escrito abaixo do jeito que eu vi acontecer nas suas histórias.

Voltar à origem

Antes de discutir valor, prazo ou desconto, você abre o processo no começo. Legislação da época, não a de hoje. A lei de 1969 que não foi revogada, o entendimento de 1999 que ninguém aplicou, o decreto que trata de dívida que não é tributo.

Conferir o que ninguém conferiu

O erro quase sempre está à vista: auto copiado e colado com valor de outro rebanho, encargo que não incide, prazo que já correu. "É por isso que esse povo está perdendo as fazendas. Se você não olhar."

Separar o devido do indevido

Antes de qualquer negociação, saber quanto da conta é real. Você chama a diferença de gordura. É o passo que quase ninguém dá, e é o que muda a posição na mesa.

Só então negociar

Com o valor real na mão, negociar deixa de ser pedido e vira conversa entre iguais. Foi assim que você disse ao cliente para não aceitar a proposta do Estado, porque dava para conseguir melhor.

Os três princípios que sustentam isso

Expertise não é saber tudo. Suas palavras: "eu não sei tudo, mas eu sei onde procurar, porque em algum momento eu já ouvi falar daquilo". Quarenta anos não te deram respostas prontas, te deram endereços.

O erro está à vista de todos. Não é preciso genialidade, é preciso abrir o documento. O que impede não é a dificuldade, é o volume: quem tem processo demais não olha nenhum.

Tempo é a variável que ninguém contabiliza. O produtor sabe três anos antes. O processo fica vinte anos parado. Você é a única pessoa em toda a cadeia que trata o tempo como matéria, e não como pano de fundo.

O que te diferencia

Você lê. Os outros empilham.

Você descreveu o concorrente sem que eu pedisse: "é o escritório mais bonito de Goiás, mas os advogados gostam de fazer filminho e helicóptero. Está buscando muito número de cliente, mas não consegue olhar para esse cliente nem para os processos".

Volume e leitura disputam o mesmo tempo, e só uma das duas salva fazenda. Este território está vago, e ele é seu.

O que o cliente vê

O homem que subiu no palco

Num jantar das cavalhadas para quinhentas pessoas, o presidente da cooperativa te chamou ao palco e disse na frente de todo mundo que você é "o ar que eu respiro", o braço direito e o braço esquerdo.

Você contou isso quase de passagem. É a prova social mais forte que você tem, vinda de um par que o seu público respeita, e ela está parada.

A pergunta que você faz para todo advogado novo

Quando um recém formado entra no seu escritório, você não pergunta nota, nem estágio, nem especialização. Você pergunta uma coisa só:

"Você sabe português? Eu não falo, eu pergunto. Porque a pessoa que não sabe português não consegue viver comigo."

12 de agosto de 2026

Isso parece exigência de estilo e não é. Quem não escreve com precisão não lê com precisão, e o seu trabalho inteiro depende de ler o que está escrito. Uma vírgula muda um cálculo. Um termo mal lido muda uma tese. Você transformou a sua vaidade mais antiga, a da língua, em critério técnico de contratação.

O que isso te faz pensar

Ver o que você faz por instinto escrito em quatro etapas: isso te parece certo ou te parece pequeno demais? E quando você abre um processo e sente que tem coisa errada ali, antes de achar o quê, o que é que aparece primeiro?

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08

O que você não vê em você

Esta é a parte desconfortável. São padrões que aparecem nas três conversas, ditos por você mesma, em contextos diferentes e sem ligação aparente entre si. Eu liguei. Você tem todo o direito de discordar, e discordar aqui vale mais do que concordar.

Padrão I

Você termina tudo, e não entrega

O perfil dos tapetes está pronto há tempo e nunca vendeu uma peça. Quando eu perguntei se faltava coragem de cobrar, de negociar ou de se desfazer, você respondeu: "de me desfazer da peça. Ou de pôr para funcionar".

A defesa do processo de vinte milhões está escrita, e o contrato não foi assinado. Suas palavras: "eu já fiz até a defesa porque eu sou precipitada, mas não contei para ele que está pronto, porque eu não aguento ser desafiada, matar a cobra e mostrar o pau".

Três cheques de mais de cento e cinquenta mil de um antigo cliente, que você nunca foi cobrar. "Eu tenho esse problema, eu vou deixando as coisas."

A Associação dos alérgicos tem estatuto pronto, logomarca feita e registro no INPI. Nunca foi lançada.

Você é rápida para produzir e lenta para entregar. E há uma diferença entre as duas coisas que custa dinheiro: produzir é solitário e seguro, entregar é público e sujeito a resposta. O que se repete nos quatro casos não é preguiça nem falta de tempo. É sempre o mesmo último centímetro.

Padrão II

Não é medo de aparecer. É medo de não estar adequada

Na segunda conversa você disse que queria "passar despercebida". Na terceira, quando eu confrontei, você mesma corrigiu: "eu nunca passei despercebida, nunca. Sempre desequilibrei o ambiente."

E logo em seguida veio o que realmente pesa: "a questão da adequação. Sempre ser adequado, sempre estar adequado. E não é vestimenta, é ser adequado nas relações, em todas as áreas. Talvez seja a situação de ter vivido no interior, numa sociedade completamente diferente da que depois eu fui conhecendo."

A prova está numa perda concreta: você recusou a entrevista da Jovem Pan de Presidente Prudente, na região mais endividada do interior paulista, porque não estava se sentindo segura naquele dia. Não foi vergonha de câmera.

Isso muda tudo, e para melhor. Não existe timidez a vencer, existe preparo a garantir. Você não precisa de coragem, precisa de pauta com antecedência e de domínio do assunto. Isso é logística, não é personalidade.

Padrão III

Você chama de acaso o que foi constância

Ao contar a virada da carreira, você disse: "foi uma feliz junção de coincidências. Tudo na minha vida foi um acaso."

Mas a história que você contou em seguida foi a do prédio perto do fórum, dos horários e do sapato trocado na porta. Um ex-diretor de banco reparou, e foi essa porta que virou a carreira inteira.

O mesmo se repete no caso do delegado: você resolveu de graça um problema de um cliente que nem era seu, e meses depois o cargo mais importante da Receita em Goiás disse a um presidente de banco que só havia uma pessoa capaz de resolver aquilo.

Duas vezes, a mesma sequência: você faz mais do que era esperado, sem cobrar por aquilo, e alguém com autoridade repara. Isso não é acaso, é um mecanismo. E mecanismo se pode repetir de propósito.

Padrão IV

Você diagnostica no produtor exatamente o que faz consigo

Sobre o produtor rural, você foi cirúrgica: "o problema dele é não enfrentar esse diagnóstico. Ele já sabe três anos antes. A crença de que vai dar certo, que ano que vem será melhor, é o maior entrave."

Sobre a sua aposentadoria em 2031, quando eu perguntei quanto precisaria entrar por mês: "não tenho ideia. Um milhão, né? Acho que é um número redondo."

Sobre o processo de vinte milhões, com a defesa já escrita: "essa proposta já deve ter mandado para ele há um mês, dois meses. Estou esperando a contraproposta."

Você enxerga com precisão o adiamento do outro e chama o próprio de temperamento. O diagnóstico que você cobra do produtor, você ainda não fez do seu próprio negócio em número. Digo isso com todo o respeito, e digo justamente porque você me pediu para não ser cortês quando fosse importante.

Padrão V

O seu romance é sobre você, e talvez você não tenha percebido

Você escreve sobre pessoas que atravessam séculos carregando o que viram e que não sabem por que são imortais. O Dee foi sacerdote no Egito, foi neto de Tamerlão, foi astrólogo da rainha Elizabeth, e hoje é consultor de pouquíssimas famílias no mundo porque carrega toda essa vivência.

Você também contou que se lembra da Pangeia, do barulho e da poeira, e de antes de haver carne e sangue sobre a terra. E disse, na mesma frase, que sabe que isso é complicado de ouvir.

E o seu maior medo, dito no primeiro minuto da nossa última conversa, é "morrer e ninguém contar as histórias que me foram cedidas para serem contadas".

O personagem central da sua obra é alguém cujo valor está em ter atravessado o tempo e guardado o que ninguém mais guardou. É exatamente o que você vende profissionalmente: quarenta anos de repertório aplicados a uma matéria em que quase ninguém tem repertório. Você escreveu sobre si mesma e chamou de ficção.

Padrão VI

Você protege quem deve e não protege quem cobra

Foi rigorosa com honorário na negociação com uma produtora de mil e poucas cabeças, e não abaixou. Mas não foi atrás de cheques de cento e cinquenta mil de um hospital: "eu fiquei tão indignada. Eu não vou brigando porque eu não quero brigar."

Entregou uma defesa de vinte milhões sem contrato assinado. Fez contratos com uma construtora em 1995 que nunca voltaram assinados, e prestou serviço mesmo assim por vinte e oito anos, até o cliente pedir o dinheiro de volta.

Sobre esse episódio: "isso para mim é constrangedor". E você tem razão de se sentir assim. Mas o constrangimento veio de uma exposição que um contrato assinado teria evitado.

Você tem coragem de sobra para enfrentar a União num processo de vinte milhões, e recua diante de uma conversa pessoal sobre dinheiro que já é seu. O que você chama de "não querer brigar" tem um preço, e ele já está pago em várias parcelas.

Padrão VII

Você faz de graça a coisa mais cara que você tem

Você abre processos que não são seus por curiosidade, e avisa. Foi assim que viu a ordem de penhora na conta pessoal do presidente da cooperativa e avisou a secretária dele antes de ser contratada para aquilo.

Foi assim no caso do leilão: você olhou o processo de outro advogado, num feriado, na piscina, e viu o segundo leilão marcado que ninguém tinha percebido.

Foi assim em 1994, quando resolveu a certidão de uma empresa que não era mais cliente: "eu acho que eu nem cobrei disso."

Aquilo que você dá de graça é justamente o que ninguém mais sabe fazer: o olhar. Não estou dizendo para parar de fazer, porque é isso que gera a indicação que sustenta o seu negócio. Estou dizendo para reparar que a sua generosidade e a sua aquisição de clientes são a mesma coisa, e que isso pode ser tratado com método em vez de acaso.

Padrão VIII

Você sabe exatamente o preço do que faz, e negocia como se não soubesse

Você disse, sobre uma cliente que não queria pagar setenta e cinco mil por uma defesa de quatro a cinco anos em três instâncias: "quarenta anos de profissão, como é que eu vou baixar agora?"

E na frase seguinte: "eu vou cobrar setenta e cinco, ela vai chorar, eu vou fechar por uns sessenta".

A cliente de Rio Verde cancelou o contrato por carta registrada quando você avisou que a solução sairia mais rápido do que o esperado. Ela achou que pagar por algo fácil era injusto, e você concluiu com precisão: "o goiano não cobiça aquilo que é seu, ele cobiça aquilo que ele tem que te pagar."

Você diagnosticou o comportamento do mercado com clareza e ainda assim entra na negociação já prevendo o próprio recuo. Se a facilidade aparente destrói o valor percebido, então a complexidade precisa aparecer antes do resultado, e isso é comunicação, não é preço. É a parte que eu posso resolver por você.

O fio que costura os oito

Todos os oito padrões são a mesma coisa vista de ângulos diferentes: você é generosa com o mundo e econômica consigo.

Dá o olhar de graça, entrega antes de assinar, não cobra o que é seu, adia o próprio diagnóstico, guarda a obra, e chama de acaso o que foi trabalho. Nada disso é defeito de caráter. É excesso da mesma virtude.

Por que isso está aqui: nada disso é crítica, e nada disso muda o que você construiu. Está aqui porque você disse, na última conversa, que essas perguntas estavam te levando a repensar muita coisa, e que olhar para dentro é terapêutico e revelador. Se algum destes oito estiver errado, a coisa mais útil que você pode fazer é escrever logo abaixo onde e por quê.

O que isso te faz pensar

Este é o lugar para discordar. Qual desses padrões você não reconhece? Qual deles te incomodou mais, e por quê? E o que exatamente acontece em você no instante em que uma coisa fica pronta e precisa ser entregue?

Ainda em branco
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A obra guardada

Inventário do que já existe e ainda não saiu. Nenhum destes projetos precisa começar: todos já começaram. Este é o retrato de onde cada um parou, e do que exatamente falta.

O romance dos imortais

Escrito em partes

Aurora, que escreve num site underground sobre o padrão das aparições marianas e é contratada como ghost writer por alguém que diz não ser ficção. O contratante, que manda entregar a ela um manuscrito de Leonardo. O Dee, que foi sacerdote de Aton, neto de Tamerlão e astrólogo de Elizabeth, e que hoje é chamado ao deserto para ler os astros sem interferência de luz. O aleijado desde o Egito, hoje em cadeira de titânio, que é a voz mais respeitada do grupo e teme que a exposição os coloque em risco. Hipátia de Alexandria como origem da linhagem.

Você disse que chorou ao escrever a cena em que Aurora recebe o manuscrito: "eu choro de ler, porque quando sai de mim já não é meu, já é do mundo".

O que faltaUma forma e um lugar. Você mesma sugeriu: capítulos em série, no perfil ou em newsletter, ancorados nas músicas dos personagens. E você mesma disse o tamanho do que isso pode ser: uma série. Falta escolher um formato e publicar o primeiro capítulo.

A Princesa Isabel e o processo de 128 anos

Pesquisado

Cópia do processo obtida, cartórios visitados, anos de pesquisa. O dote imperial criado por decreto para as duas irmãs, as terras compradas por Gastão na adjacência com dinheiro da coroa europeia, as cinco universidades consultadas pelo Ministério do Interior que deram razão a ela por unanimidade, o juiz que decidiu em sentido contrário, e a origem da palavra jurisconsulto. E o sumiço do processo por sessenta e sete anos, que é o que mais te prende.

Existe também a carta psicografada assinada pelo espírito de Deodoro, que você escreveu, publicou em pedaços no dia 15 de novembro por dois ou três anos seguidos, e demorou a assumir. As pessoas perguntam onde está o resto.

O que faltaNada de pesquisa. Falta decidir o formato: livro, série de artigos ou episódios. Você disse que "essa história não pode morrer comigo, se não for por mim, por alguém". Você é a pessoa mais qualificada que existe para isso, e é a única que sabe onde estão as cópias.

As músicas

Prontas

Letras suas, várias, com voz gerada. Samarcanda, com os bordados de ouro e tecidos de seda, a imensidão das flores e as ofertas de sândalo cinco vezes ao dia. Aurora, cantada em italiano, que diz que ninguém vive de amor mas pode se morrer dele. A caolha do sertão, que fala de um olho ferido guardado nas saias de Santa Bárbara e que você interrompeu porque veio com força demais. E o funk, que você cantou rindo.

O que faltaUm lugar público. As letras são suas e o direito autoral também. Distribuidora digital resolve em um dia, e o nome do projeto não precisa ser o seu. Você já tinha pensado nisso: uma banda sem endereço, que ninguém sabe de onde vem.

A Associação dos alérgicos à proteína do leite

Registrada, não lançada

Estatuto pronto, logomarca feita, INPI registrado, gente disposta a assinar. O objetivo é normatizar e regular a informação em rótulo e em cardápio, para quem entra num supermercado ou num restaurante e não consegue saber o que está comendo. Você tem seis anos de comissão do consumidor por trás disso e material coletado para escrever artigos.

O que faltaUma data. Você já desenhou o lançamento inteiro em voz alta: uma transmissão com médicos, gente de segurança alimentar e institutos de rotulagem, e a assessoria mandando release para o Brasil inteiro. Falta marcar o dia.

Os tapetes

Coleção viva

Cento e oitenta peças, uma coleção de livros sobre tapetes, e a história do xá Abbas com as trinta e quatro arcas que saíram para o ocidente e foram assaltadas perto de Constantinopla, com os tapetes voadores perdidos até hoje. O perfil existe e nunca vendeu nada.

O que faltaDecidir o que ele é. Se for para vender, precisa de preço e de coragem. Se for para contar história, não precisa vender nada: cada peça carrega uma, e isso sozinho já é obra.

O trabalho de constelação para devedores

Ideia com interlocutor

Você foi atrás de uma consteladora brasileira que mora nos Estados Unidos para desenvolver um trabalho com devedores, partindo de uma tese sua: adianta pouco reduzir a dívida e falar de superendividamento sem tratar a ferida onde ela nasceu, que na sua leitura é geracional e vem da escravidão.

O que faltaEscopo. É o projeto mais original desta lista e o menos definido. Vale decidir se ele é um artigo, uma pesquisa, um serviço ou um livro, antes de qualquer outra coisa.

Uma observação sobre este inventário

Você disse que tem mais uns quinze projetos além destes, e eu acredito. Mas nenhum destes seis está no começo. Todos estão a um passo do fim, e é sempre o mesmo passo.

Se você escolher um só e levar até a rua, os outros ficam mais fáceis. Porque o que vai ter mudado não é o projeto. É você ter atravessado o último centímetro uma vez.

O que isso te faz pensar

Qual desses você não suportaria deixar para trás? Qual deles você olharia hoje e diria que já não te interessa mais? E se você tivesse que soltar um único no mundo nos próximos seis meses, sabendo que os outros continuariam guardados, qual seria?

Ainda em branco
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Suas reflexões

Este espaço é seu. Sem pergunta, sem ordem e sem obrigação. Escreva o que estiver na cabeça, na hora em que estiver, e volte quando quiser para reler ou para mudar de ideia.

Sobre privacidade, com todas as letras

Tudo que você escrever, aqui e nos espaços ao longo do documento, nasce privado. Fica só neste dispositivo, e ninguém tem acesso, nem eu.

Se em algum momento você quiser me mostrar alguma coisa, é só ligar a chave compartilhar com o Áureo naquele texto específico. Só o que estiver com a chave ligada chega até mim. Se você desligar depois, o registro é apagado também do meu lado.

Confiança é inegociável, você me disse isso com todas as letras. Então essa parte é construída à sua vista.

Se ajudar a começar

Não são perguntas para responder. São portas, caso o papel em branco pese num dia qualquer.

  • O que eu li aqui e ainda estou remoendo
  • Uma coisa que eu nunca disse a ninguém sobre o meu trabalho
  • Se a menina de Piracanjuba me visse hoje, o que ela perguntaria
  • "As histórias que me foram cedidas para serem contadas": cedidas por quem
  • O que eu faria em janeiro de 2031 se o dinheiro deixasse de ser um problema
  • O que eu escrevi aqui há um mês e hoje já não penso mais assim
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